O relatório de crédito do Banco Central referente a maio mostra desaceleração nas concessões de crédito pessoal não consignado. O volume caiu 3,2% na comparação com abril, em termos reais. Não é colapso — é arrefecimento gradual, coerente com taxa Selic em patamar elevado e custo do rotativo que desincentiva novas compras parceladas no cartão.
A taxa média do crédito pessoal ficou em 4,8% ao mês em maio, estável em relação ao mês anterior. O rotativo do cartão de crédito, porém, manteve-se acima de 14% ao mês — um patamar que torna esse instrumento proibitivo para financiar consumo não essencial. Famílias que dependem do rotativo para fechar o mês enfrentam ciclo de endividamento difícil de quebrar.
Concessões e composição
Crédito consignado seguiu em alta moderada, puxado por aposentados e servidores públicos. O volume cresceu 1,1% no mês, com taxa média em torno de 1,9% ao mês. A diferença de custo entre consignado e pessoal livre continua ampla — e explica parte da migração de demanda.
Financiamento de veículos desacelerou após trimestre forte. Concessões caíram 2,4%, reflexo de juros elevados e preços de carros novos ainda pressionados. Crédito imobiliário manteve ritmo estável, com taxa média em torno de 0,9% ao mês mais TR — segmento menos sensível a oscilações de curto prazo.
Inadimplência e perfil do tomador
A inadimplência acima de 90 dias no crédito pessoal ficou em 5,8%, estável em relação a abril. Porém, a deterioração marginal concentra-se em faixas de score abaixo de 600: inadimplência nesse segmento subiu 0,4 ponto percentual. Bancos relatam critério mais rigoroso na concessão para perfis de maior risco.
Taxa alta não elimina demanda — redireciona para quem ainda tem acesso e afasta quem não tem.
O endividamento das famílias, medido como percentual da renda comprometida com parcelas, permanece em torno de 28%. O patamar é elevado, mas não cresceu nos últimos dois trimestres. A leitura é de estabilização, não de alívio: famílias já comprometidas não estão contraindo mais, mas também não estão expandindo consumo financiado.
Impacto no consumo
Crédito e consumo andam juntos no Brasil. Quando concessões desaceleram, varejo de bens duráveis sente primeiro. Dados de vendas de eletrodomésticos e móveis mostram queda real em abril e maio, alinhada ao arrefecimento do crédito pessoal. Supermercados e farmácias, menos dependentes de financiamento, seguem resilientes.
O rotativo alto funciona como teto implícito. Compras no cartão que não são quitadas na fatura seguinte carregam custo que poucas famílias sustentam por muitos meses. A desaceleração nas concessões de pessoal pode refletir, em parte, saturação: quem precisava de crédito já tomou; quem não conseguiu aprovação migrou para consignado ou deixou de consumir.
O que observar
A reunião do Copom em junho mantém Selic estável, sem sinalização de corte imediato. Para crédito, isso significa taxas elevadas por mais tempo. Concessões devem seguir em ritmo moderado, com bancos seletivos em perfis de risco.
Para o leitor que avalia contrair crédito pessoal ou usar rotativo, a conta é direta: comparar taxa efetiva, prazo e impacto na renda mensal. O dado agregado mostra arrefecimento — sinal de que o sistema já opera perto do limite de demanda sustentável no patamar atual de juros.