A PNAD Contínua do trimestre móvel encerrado em maio trouxe renda domiciliar per capita de R$ 1.412, praticamente estável em relação ao trimestre anterior. Em termos reais, descontada a inflação, a renda caiu 0,2% — margem pequena, mas relevante quando alimentação acelera no IPCA.
A estabilidade na média esconde movimentos distintos por região e por tipo de rendimento. O Sudeste concentra ganhos reais modestos, puxados por salários formais em serviços. O Nordeste opera abaixo da média nacional, mas com melhora no mercado de trabalho informal e em ocupações por conta própria.
Composição da renda
O rendimento do trabalho responde por cerca de 62% da renda domiciliar total. Benefícios previdenciários e assistenciais somam 22%. Outras fontes — aluguéis, pensões, transferências entre domicílios — completam o restante. A participação do trabalho subiu 0,8 ponto percentual no ano, sinal de recuperação gradual do mercado de emprego.
Renda de trabalho formal cresceu 1,2% em termos nominais no trimestre. Renda informal e por conta própria ficou estável. A diferença reflete composição do emprego: vagas formais em serviços e comércio compensam perdas em construção e indústria.
Desigualdade regional
O Sudeste registra renda per capita de R$ 1.680, 19% acima da média nacional. O Sul fica em R$ 1.520. O Nordeste, em R$ 980, permanece 31% abaixo da média — gap que se mantém estável há dois anos, apesar de queda no desemprego regional.
Belém e Manaus apresentam renda abaixo da média regional, com peso maior de emprego informal. São Paulo e Rio concentram rendimentos mais altos, mas também custo de vida superior. A comparação nominal entre capitais pode enganar: renda real ajustada por IPCA regional mostra diferenças menores do que os números brutos sugerem.
A média nacional é útil para panorama — para entender o bolso, a região e a fonte de renda importam mais.
Mercado de trabalho e renda
A taxa de desocupação ficou em 7,4%, estável em relação ao trimestre anterior. O mercado formal segue criando vagas, mas em ritmo menor: CAGED de maio registrou saldo positivo de 89 mil postos, contra média de 120 mil nos três meses anteriores. Serviços lideram; indústria e construção estacionam.
Massa salarial real — rendimento total do trabalho no país — cresceu 0,6% no trimestre. O número é positivo, mas insuficiente para acompanhar inflação de alimentos. Famílias que dependem exclusivamente de salário sentem o aperto; famílias com múltiplas fontes de renda absorvem melhor.
Implicações para consumo
Renda estável com inflação de alimentos em alta significa perda de poder de compra no essencial. Dados de intenção de consumo mostram famílias priorizando despesa do lar e postergando compras de bens duráveis. O padrão é consistente com PNAD e IPCA lidos em conjunto.
Programas de transferência de renda mantiveram participação estável na composição familiar. Bolsa Família e BPC respondem por parcela relevante da renda nos quintis inferiores. Qualquer revisão de benefícios impacta consumo de alimentos e serviços básicos de forma desproporcional.
O que observar
A próxima divulgação da PNAD, em julho, cobrirá o trimestre móvel até junho. Mercado de trabalho de verão — turismo, agricultura — pode puxar renda informal para cima. Formalização segue como variável-chave: mais vagas com carteira significam rendimento mais estável e previsível.
Para o leitor, a lição é evitar conclusões a partir de um único número. Renda per capita estável não significa que todas as famílias estão iguais — significa que ganhos e perdas se compensam na média. Olhar região, tipo de emprego e composição da renda dá leitura mais útil para o orçamento doméstico.